Sávio Bittencourt

Promotor de Justiça (RJ). Formado em Direito (UFF). Mestre em História Social (USS). Doutor em Geografia (UFRJ).Professor da Pós da PUC-RIO e da FGV. Presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção e fundador do Quintal da Casa de Ana

Sávio Bittencourt

Promotor de Justiça (RJ). Formado em Direito (UFF). Mestre em História Social (USS). Doutor em Geografia (UFRJ).Professor da Pós da PUC-RIO e da FGV. Presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção e fundador do Quintal da Casa de Ana
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Arquivo de: Setembro 2008

30.09.08

A Onça do Carangola!

A Onça do Carangola,
Por Sávio Bittencourt (artigo publicado no Estado, Fortaleza-CE).

Tenho uma história bonita para contar sobre a minha mãe, Dona Dirce, professora de português, que passou a juventude dentro de um colégio pertencente à família, aprendendo a lecionar na prática do dia-a-dia, muito antes de buscar sua formação acadêmica. Anos mais tarde, já integrando o corpo docente do Estado do Rio de Janeiro, pude acompanhar sua dedicação aos alunos da Escola Estadual Aurelino Leal. Ela organizava teatrinho com a turma para facilitar o ensino da língua, fazia as fantasias com ajuda de uma costureira, e após muito ensaio, realizava uma apresentação para toda a escola. Os conhecimentos da língua portuguesa iam ali misturados com sua didática carinhosa.

Não tenho como medir os resultados efetivos desta estratégia de ensino, destinada a crianças oriundas de comunidades carentes nas quais já havia atividade de tráfico de drogas, além da tradicional pobreza. Mas desconfio que ela deveria conseguir uma maior adesão do interesse dos alunos que os professores que optavam pelas aulas tradicionais. Ela tinha uma carta na manga: mexia com a auto-estima dos alunos, transformando-os em estrelas do espetáculo e permitia um pouco de colorido em realidades bastante estéreis.

Outro segredo da Professora Dona Dirce: ela era extremamente feliz com o que fazia. Nunca a ouvi reclamar de salário ou condições de trabalho. Não se permitiu apequenar-se e seguiu firmemente sua vocação. A Escola não tinha verba para as fantasias do teatro? Ela comprava os panos e fazia. Não havia local para ensaiar? Ela reservava a parte final da aula para transformar a sala em arena de teatro, empurrando as carteiras com a garotada.

Como mãe de meninas e menino, Dona Dirce foi especialmente acolhedora e afetiva. Preparava comidinha caseira para o jantar da família e nós víamos novela todos juntos. Era um porto seguro da minha infância. Respeitava o jeito peculiar de cada filho. Nos permitiu crescer como adultos emocionalmente seguros.

Todavia, a paciência dela tinha um determinado limite. Quando a pirraça era demasiada, ou a desobediência lhe parecia muito grave ela era de uma firmeza impar. Nestes momentos, raríssimos, ela fazia jus ao apelido que tinha de “onça do carangola”, porque tomava imediatamente as decisões e as executava sem dar chance a qualquer apelo. Uma vez, ela me proibira de sair de casa de bicicleta, quando eu tinha uns oito anos, porque eu deveria tomar banho e me aprontar para um compromisso, que agora não me recordo, mas que devia ser importante. Mas eu desobedeci e sai escondido para dar uma voltinha rápida e voltar antes que ela percebesse. Pois bem, minha mãe se deu conta da minha falta, pegou o fusquinha e, acompanhada da nossa empregada, partiu a me procurar pela vizinhança. Ao me encontrar passeando em flagrante desobediência a uma ordem tão bem explicada e suplicada, ela parou o carro no meio da rua, me pegou com bicicleta e tudo e enfiou no fusca! Até hoje eu acho que ela contrariou uma lei da física, porque não cabíamos nós e a bicicleta dentro daquele carro!

Lembrança boa, essa. A minha sorte é que minha mãe até hoje me acompanha. Está muito bem, graças a Deus. Em sua homenagem consagrei minha vida a lutar para que todas as crianças tenham a possibilidade de viver o mesmo afeto e cuidado. Sei como foi fundamental sua presença na minha infância e quero compartilhar este sentimento com as crianças do Brasil. Tenho certeza que a inexistência de afeto destroça o amor próprio. Convido os amigos leitores, em nome dos carinhos de suas infâncias, para a mesma luta, para que cada criança cresça numa família!

22.09.08

O abrigo

O Abrigo
Por Sávio Bittencourt (artigo publicado no Jornal O Estado, de Fortaleza, em setembro de 2008).

 


Vou fazer afirmações aqui desconcertantes: há cem mil brasileiros, crianças e adolescentes, vivendo em instituições que deveriam amparar apena transitoriamente aqueles que necessitassem ser afastados de seu lar, por um período curto de tempo, estritamente para que fosse superado algum risco para sua integridade física ou emocional existente em sua família ou comunidade.
Por terem esta bela missão, tais instituições receberam uma denominação afetiva no Estatuto da Criança e do Adolescente: abrigo. A idéia que surge ao pensarmos num abrigo é de proteção, segurança. O abrigo é o ambiente da salvação, que garante a vida e o bem estar do abrigado. Podemos nos remeter aos filmes de aventura, quando pessoas perdidas na neve, perecendo de frio e de fome, encontram um chalé salvador, com lenha seca para queimar e espantar o congelamento, água potável e mantimentos para matar a sede e a fome terríveis.
No filme DERZU USALA, uma produção soviética dirigida pelo grande Akira Kurosawa, o personagem que dá nome à obra é um caçador nômade, perfeitamente integrado às florestas e lagos gelados da região de Chtokovo, no território de Ussuri. Numa noite, em 1902, ele encontra um destacamento militar russo, comandado pelo Capitão Arseniev, que faz o levantamento topográfico da região, que o contrata como guia do grupo militar.
O filme é belíssimo, mostrando a intimidade e o respeito que o conhecimento simples do camponês caçador desperta no oficial russo e seus comandados. Numa das passagens mais bonitas, DERZU e a tropa acham um casebre no meio de floresta. Antes de seguir viagem para o seu destino, ele insiste em deixar no casebre tosco um pouco de comida, sal e apetrechos de sobrevivência, provocando a curiosidade dos militares. Por que se preocupar com estas coisas? Para garantir a sobrevivência de um viajante qualquer, que por algum motivo, precise de um abrigo noturno, no meio da floresta gelada, sem o qual sua vida seria certamente perdida. Assim, a pessoa teria condições de sobreviver à noite quase glacial e continuar sua jornada no dia seguinte. Para mim trata-se de uma obra–prima.
Pois bem, os abrigos de crianças no Brasil deveriam seguir a mesma lógica singela e generosa do personagem DERZU USALA: receber uma criança em situação de risco para cuidá-la com afeto e lutar para que ela pudesse seguir sua jornada no seio de uma família. Com a mesma velocidade que se deseja para o transcorrer de uma noite gelada, quando se está numa cabana. Todavia, no Brasil os abrigos - em sua maioria e com honrosas exceções – são instituições que têm a filosofia do antigo orfanato: se pretendem eternas na vida da criança. Alguns lucram com sua longa permanência na instituição, seja por fomento estatal, seja por doações de cidadãos desavisados. Há os que sonegam informações ao judiciário e os que mantêm as crianças incomunicáveis com a sociedade civil, como se elas fosse prisioneiras ou coisas de sua propriedade. Existem aqueles em que as crianças sofrem violências covardes, inclusive sexuais.
É imperioso que a sociedade civil assuma o papel de transformação destes espaços, denunciando irregularidades e exigindo transparência no tratamento com as crianças abrigadas. Ao Ministério Público cabe fiscalizar não só as instalações, mas se informar sobre a forma de proceder dos dirigentes e funcionários. Cabe mais ao Ministério Público: o inalienável direito da criança de viver em família merece uma investigação para cada um dos abrigados, para saber se ele tem condições de retornar a sua família de origem ou se será encaminhada para adoção. Na velocidade de uma noite gélida, para a alma de uma criança abandonada.

19.09.08

O Livro da Vida!

O Livro da Vida
Por Sávio Bittencourt
(artigo publicado em agosto  de 2008 no Jornal O Estado, de Fortaleza)

A maioria das pessoas vive a vida como se estivesse seguindo um roteiro minuciosamente traçado por sábios ancestrais, traduzidos em regras intransponíveis e imutáveis. Tais regras são mencionadas nas rodas sociais, nas casas, ruas e praças, como manifestação do domínio público sobre os comportamentos humanos. É o livro da vida, de autoria coletiva e difusa, que traz em suas páginas imaginárias a forma correta de se viver.

Neste livro invisível, mas que todos conhecem os ensinamentos, são ministradas as fórmulas da felicidade, de como levar uma vida tranqüila e segura, quais as medidas para “ganhar” a vida. Ele sempre é citado, com ares de autoridade, por todos os que estão no exercício de fiscalização e intromissão na vida alheia. Há sempre na nossa infância e adolescência uma pessoa que era mestrada e doutorada nesta disciplina: saber como os outros deveriam viver. Estas lembranças não se apagam. Lições de sabedoria de vida, que com uma certa superioridade humilde e caridosa, vão sendo lançadas ao ar, como a ajuda não pedida, o socorro não gritado.

Neste livro da vida há várias regras importantes, verdadeiros princípios, recomendados pela prudência. Você deve estudar, se casar, ter filhos – talvez um só porque dá muito trabalho e despesa. Você deve trabalhar exaustivamente, porque você é o que faz profissionalmente. Você deve economizar tudo o que puder para ter um futuro seguro. Você deve ter a aparência compatível com sua classe social, com todo o consumo por ela realizado, ainda que inútil e fútil. Você deve ter metas. Você deve viajar sempre com um pote de aspirinas. Você deve fazer concurso público. Você só deve se apaixonar por quem te de segurança.Você deve fazer isso e aquilo. Talvez um “adulteriozinho” discreto seja perdoado, nas letras menores, no rodapé da página 586 deste livro não escrito.

Há pessoas que passam a vida inteira sob a égide destas regras do senso comum. É como se fosse uma verdade eterna e absoluta, imutável. A sabedoria emana do senso comum! Tudo o que vem da tradição nos parece certo e cheio de coerência. Olhamos para o passado como os bons tempos e a sobrevivência de valores antigos dispensa qualquer comprovação de validade. O antigo se basta.

Será que esquecemos que o senso comum dos povos já apoiou e permitiu atrocidades? Nos esquecemos que o nazismo e o fascismo forma eleitos e aprovados pelo senso comum? E a escravidão? Não havia uma doutrina desenvolvida para defender sua validade? E o racismo americano e sul-africano, que era acolhido pela lei de segregação? Não foram todas estas manifestação históricas em algum momento legitimadas pelo senso comum?

Não venho aqui propor ao amigo leitor que viva uma vida sem regra alguma. Não é isso. O que pretendo é garantir a capacidade de crítica ao que é imposto socialmente, sem a nossa licença, para as nossas vidas, únicas e breves. Proponho a superação do livrinho da vida, a vitória sobre a acomodação e a possibilidade de viver sem medo. A prudência não pode significar covardia de não ser feliz. Proponho a abolição do livro da vida com seus conselhos prontos. Revogue-o agora. Sinta a delícia de ser livre e ter unicamente o amor como fonte de ponderação de suas ações. O amor, em sua intensidade infinita, este deve ser o norte de toda a existência. Ele nos impede de fazer coisas ruins, sem julgamentos condenatórios. Ele nos empurra para os caminhos da felicidade e nos faz vencer o medo. Nos permite viver o novo, nos reconstruir. O amor é a única bússola.

O que você faria se não tivesse medo?



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15.09.08

Sobre ser Pai

SOBRE SER PAI
Por Sávio Bittencourt    (artigo publicado no Jornal O Estado, de Fortaleza)

Com a proximidade do dia dos pais é muito comum a aparição de artigos e matérias sobre a paternidade, quase sempre com o enaltecimento da figura paterna, sua importância para a formação da personalidade do filho e a dedicação à manutenção e proteção da família. Sem querer destruir mitos sociais, nem diminuir a relevância da presença do pai na criação dos filhos, é necessária a realização de uma abordagem mais realista sobre o que significa ser pai.

Comecemos pela idéia da paternidade idealizada, que vemos nos comerciais de TV, que para nos venderem produtos que em geral não são necessários, impressionam com imagens belíssimas de pais idosos, que trabalharam a vida inteira, a agora são reconhecidos pelo carinho dos filhos. É tocante. Há também aqueles comerciais com pais jovens, participando das brincadeiras das crianças, sendo parceiro do filho em traquinagens ou simplesmente exibindo a felicidade advinda da paternidade. É estimulante. A propaganda nos seduz porque nos mostra a vida que gostaríamos de ter, num flash de 30 segundos, sem os desgastes elementares que a vida real nos traz.

Mas ser pai é bem menos lúdico na vida real. No dia-a-dia isso significa uma construção permanente, entre erros e acertos - mais erros do que acertos – numa relação absolutamente única com aquele filho, matizada pelas características personalizadas da cada um dos seres que se relacionam. É falsa a imagem da TV: não há relações perfeitas, nem se podem traçar noções da paternidade na generalidade, como se houvesse um sentimento comum de gosto por ser pai. Há pessoas que adoram ser pais e se esforçam para fazer o seu melhor, mas há outras que não tem o mesmo sentimento. Todos nós conhecemos pessoas que não exercem a paternidade ou o fazem de forma desinteressada, muitas vezes desleixada.

Portanto, o dia dos pais merece, mais do que presentes e discursos, uma sincera reflexão sobre o melhor papel a ser desempenhado na vida do filho, de forma equilibrada e presente. Podemos começar com uma autocrítica ponderada, sem exageros ou condescendências. A linha mestra desta análise deve ser com que honestidade o pai se dedica a esta missão, de criar uma pessoa em formação para uma vida emocionalmente saudável e afetiva. Sim, honestidade! Porque errar é humano, errar é paterno, errar é eterno! Mas se temos honestidade, que consiste em sinceridade e pureza de propósitos, no nosso cuidado diário, o filho compreenderá, certamente, nossos excessos e equívocos. Tudo é perdoável quando há cuidado. O cuidado é o corpo de delito do afeto. A generosidade do perdão estará disponível ao pai que é honesto com seu filho.

Tenho defendido a idéia de que ser pai é adotar o filho, na mais pura acepção da palavra. Mesmo o filho biológico, gerado pelo sêmen e com os cromossomos do pai, precisa por ele ser adotado, no cuidado e no carinho do cotidiano. Não há como pular a etapa dos aborrecimentos, das broncas, dos estudos forçados, de ter que brincar depois de um dia tenso e exaustivo no trabalho, do desgaste do enfrentamento das condutas erradas. Todo filho amado é adotivo, porque o pai decidiu se fazer amável e destinou àquela criança uma jazida de afeto em seu peito, além de horas e horas de dedicação diuturna, entre encontros e desencontros, mas com a fé eterna no reencontro. E no amor!

08.09.08

A PORNO-SALADA E AS CRIANÇAS-SENTIMENTO

A PORNO-SALADA E AS CRIANÇAS-SENTIMENTO
Por Sávio Bittencourt (publicado no Jornal O Estado, de Fortaleza)

A sociedade brasileira tem sido bombardeada com doses maciças de erotismo e futilidade pelos meios de comunicação de massa. Banalidades em programas “realísticos” – os denominados “reality shows” -, são lançadas nos lares, com grande sensacionalismo, provocando a mobilização de parte significativa da população em torno da convivência de jovens isolados numa casa, tratando de assuntos pueris e nada edificantes. Após o encerramento do “jogo”, naturalmente, as moças são convidadas para posar em revistas masculinas e os rapazes viram sub-celebridades em programas de auditório. É a coroação da via fácil ao “estrelato”, vendido como o circo à plebe, incentivada ao gosto da lascívia secreta, provocada pela indiscrição e bisbilhotice.

Mas há manifestações mais explícitas de erotização pela vulgaridade: o apelo à banalização do sexo com a aparição de pessoas com apelidos de vegetais, para ressaltar alguma característica física do seu corpo ou comportamento. Nesta nova vertente surgiram personagens batizados com os sugestivos nomes de “homem-berinjela”, “mulher-melancia”, “garota-melancia”, “mulher-samambaia”, “mulher-mamão”, “garota-moranguinho”, entre outras denominações. É a porno-salada brasileira, ao gosto das revistas e dos programas televisivos que apostam no marketing da semipornografia para obter audiência e lucro.

Longe de qualquer moralismo, o que não se pode perder é a consciência crítica sobre nosso comportamento, como seres humanos em busca da realização plena. Talvez os valores realmente importantes, que terão a capacidade de nos trazer paz de espírito e felicidade não possam ser encontrados neste self-service sexual, virtual ou real. É possível que esta sexualização massificada seja mais uma forma cruel de alienação da população.

Como a mente humana não tem limites, imaginei se a estratégia de apelidar as pessoas com nomes de vegetais, para vendê-las como produtos eróticos, não poderia ser apropriada para fins mais interessantes, do ponto de vista humanístico. Poderíamos trocar as leguminosas por sentimentos e criar figuras reais, que não alcançam nem mesmo a passageira celebridade dos seres-produto-do-sexo. Com esta adaptação poderíamos encontrar o menino-solidão, abandonado nas instituições de nossa cidade. O menino-solidão mora com outros milhares de meninos e meninas-solidão. Tudo que ele que é encontrar um pai-abraço ou uma mãe-afeto, para ser criado com o cuidado que lhe seja especialmente dirigido, para que possa se transformar num adulto-amor.

Para que esse sonho do menino-solidão possa se concretizar, ele precisa da ajuda de alguns heróis: os poderes transformadores do promotor-dedicação, determinado em não deixar nenhum criança sem família, podem fazer total diferença na vida deste menino. Além disso, o juiz-coragem, que não se detém diante da demagogia e das dificuldades, responsável pelo destino do menino, opta pela solução de mais amor. Neste exercício de imaginação, estes heróis não vivem encastelados em gabinetes, mas são presentes nos abrigos para tratar da realidade que ali existe, diretamente.

Na vida real, conheço alguns heróis assim. Se todos os que têm a mesma missão tivessem seu comportamento vigoroso e independente, ao invés de termos uma justiça-lentidão-injusta, poderíamos comemorar uma justiça-garantia-efetiva-de-direitos para todas as crianças-sentimento. Viva a esperança!