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criado por savio.renato
09:58:08O Abrigo
Por Sávio Bittencourt (artigo publicado no Jornal O Estado, de Fortaleza, em setembro de 2008).
Vou fazer afirmações aqui desconcertantes: há cem mil brasileiros, crianças e adolescentes, vivendo em instituições que deveriam amparar apena transitoriamente aqueles que necessitassem ser afastados de seu lar, por um período curto de tempo, estritamente para que fosse superado algum risco para sua integridade física ou emocional existente em sua família ou comunidade.
Por terem esta bela missão, tais instituições receberam uma denominação afetiva no Estatuto da Criança e do Adolescente: abrigo. A idéia que surge ao pensarmos num abrigo é de proteção, segurança. O abrigo é o ambiente da salvação, que garante a vida e o bem estar do abrigado. Podemos nos remeter aos filmes de aventura, quando pessoas perdidas na neve, perecendo de frio e de fome, encontram um chalé salvador, com lenha seca para queimar e espantar o congelamento, água potável e mantimentos para matar a sede e a fome terríveis.
No filme DERZU USALA, uma produção soviética dirigida pelo grande Akira Kurosawa, o personagem que dá nome à obra é um caçador nômade, perfeitamente integrado às florestas e lagos gelados da região de Chtokovo, no território de Ussuri. Numa noite, em 1902, ele encontra um destacamento militar russo, comandado pelo Capitão Arseniev, que faz o levantamento topográfico da região, que o contrata como guia do grupo militar.
O filme é belíssimo, mostrando a intimidade e o respeito que o conhecimento simples do camponês caçador desperta no oficial russo e seus comandados. Numa das passagens mais bonitas, DERZU e a tropa acham um casebre no meio de floresta. Antes de seguir viagem para o seu destino, ele insiste em deixar no casebre tosco um pouco de comida, sal e apetrechos de sobrevivência, provocando a curiosidade dos militares. Por que se preocupar com estas coisas? Para garantir a sobrevivência de um viajante qualquer, que por algum motivo, precise de um abrigo noturno, no meio da floresta gelada, sem o qual sua vida seria certamente perdida. Assim, a pessoa teria condições de sobreviver à noite quase glacial e continuar sua jornada no dia seguinte. Para mim trata-se de uma obra–prima.
Pois bem, os abrigos de crianças no Brasil deveriam seguir a mesma lógica singela e generosa do personagem DERZU USALA: receber uma criança em situação de risco para cuidá-la com afeto e lutar para que ela pudesse seguir sua jornada no seio de uma família. Com a mesma velocidade que se deseja para o transcorrer de uma noite gelada, quando se está numa cabana. Todavia, no Brasil os abrigos - em sua maioria e com honrosas exceções – são instituições que têm a filosofia do antigo orfanato: se pretendem eternas na vida da criança. Alguns lucram com sua longa permanência na instituição, seja por fomento estatal, seja por doações de cidadãos desavisados. Há os que sonegam informações ao judiciário e os que mantêm as crianças incomunicáveis com a sociedade civil, como se elas fosse prisioneiras ou coisas de sua propriedade. Existem aqueles em que as crianças sofrem violências covardes, inclusive sexuais.
É imperioso que a sociedade civil assuma o papel de transformação destes espaços, denunciando irregularidades e exigindo transparência no tratamento com as crianças abrigadas. Ao Ministério Público cabe fiscalizar não só as instalações, mas se informar sobre a forma de proceder dos dirigentes e funcionários. Cabe mais ao Ministério Público: o inalienável direito da criança de viver em família merece uma investigação para cada um dos abrigados, para saber se ele tem condições de retornar a sua família de origem ou se será encaminhada para adoção. Na velocidade de uma noite gélida, para a alma de uma criança abandonada.

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16:12:09
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09:01:10SOBRE SER PAI
Por Sávio Bittencourt (artigo publicado no Jornal O Estado, de Fortaleza)
Com a proximidade do dia dos pais é muito comum a aparição de artigos e matérias sobre a paternidade, quase sempre com o enaltecimento da figura paterna, sua importância para a formação da personalidade do filho e a dedicação à manutenção e proteção da família. Sem querer destruir mitos sociais, nem diminuir a relevância da presença do pai na criação dos filhos, é necessária a realização de uma abordagem mais realista sobre o que significa ser pai.
Comecemos pela idéia da paternidade idealizada, que vemos nos comerciais de TV, que para nos venderem produtos que em geral não são necessários, impressionam com imagens belíssimas de pais idosos, que trabalharam a vida inteira, a agora são reconhecidos pelo carinho dos filhos. É tocante. Há também aqueles comerciais com pais jovens, participando das brincadeiras das crianças, sendo parceiro do filho em traquinagens ou simplesmente exibindo a felicidade advinda da paternidade. É estimulante. A propaganda nos seduz porque nos mostra a vida que gostaríamos de ter, num flash de 30 segundos, sem os desgastes elementares que a vida real nos traz.
Mas ser pai é bem menos lúdico na vida real. No dia-a-dia isso significa uma construção permanente, entre erros e acertos - mais erros do que acertos – numa relação absolutamente única com aquele filho, matizada pelas características personalizadas da cada um dos seres que se relacionam. É falsa a imagem da TV: não há relações perfeitas, nem se podem traçar noções da paternidade na generalidade, como se houvesse um sentimento comum de gosto por ser pai. Há pessoas que adoram ser pais e se esforçam para fazer o seu melhor, mas há outras que não tem o mesmo sentimento. Todos nós conhecemos pessoas que não exercem a paternidade ou o fazem de forma desinteressada, muitas vezes desleixada.
Portanto, o dia dos pais merece, mais do que presentes e discursos, uma sincera reflexão sobre o melhor papel a ser desempenhado na vida do filho, de forma equilibrada e presente. Podemos começar com uma autocrítica ponderada, sem exageros ou condescendências. A linha mestra desta análise deve ser com que honestidade o pai se dedica a esta missão, de criar uma pessoa em formação para uma vida emocionalmente saudável e afetiva. Sim, honestidade! Porque errar é humano, errar é paterno, errar é eterno! Mas se temos honestidade, que consiste em sinceridade e pureza de propósitos, no nosso cuidado diário, o filho compreenderá, certamente, nossos excessos e equívocos. Tudo é perdoável quando há cuidado. O cuidado é o corpo de delito do afeto. A generosidade do perdão estará disponível ao pai que é honesto com seu filho.
Tenho defendido a idéia de que ser pai é adotar o filho, na mais pura acepção da palavra. Mesmo o filho biológico, gerado pelo sêmen e com os cromossomos do pai, precisa por ele ser adotado, no cuidado e no carinho do cotidiano. Não há como pular a etapa dos aborrecimentos, das broncas, dos estudos forçados, de ter que brincar depois de um dia tenso e exaustivo no trabalho, do desgaste do enfrentamento das condutas erradas. Todo filho amado é adotivo, porque o pai decidiu se fazer amável e destinou àquela criança uma jazida de afeto em seu peito, além de horas e horas de dedicação diuturna, entre encontros e desencontros, mas com a fé eterna no reencontro. E no amor!

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13:36:16
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