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criado por savio.renato
08:43:30Por que eu te amo?
Quando te vi, pequenina, enrolada em panos, não pensei em nada. Meu mundo ficou silente. Sem buzinas de automóveis, sem prazos de trabalhos a cumprir, sem aqueles pensamentos insistentes, invasores, que assolam a mente das pessoas. Nada. Minha vaidade, minhas economias, minha carreira, minha “qualquer outra coisa”, tudo se calou em silêncio arrebatador. Todas as pressões das coisas urgentes e importantes, as atitudes imperiosas, as conquistas sonhadas, nada me surgiu...foi como se tudo isso nunca tivesse existido.
Não havia nada ali naquele momento além de você, mulata, pequena, diante dos meus olhos, me provocando o maior silêncio que já ouvido por um mortal. Nosso primeiro abraço foi comprometedor: cerquei você com meus braços, erguendo-os com a intenção das muralhas protetoras de uma cidade medieval, te enlaçando por um instante de forma tão intensa que seria possível a qualquer laboratório identificar que nosso DNA era o mesmo. Se não o DNA do sangue, com certeza o DNA da alma. A qualquer um era possível ver que aquele homem com cara de português e aquela menina africana eram parte de um grande plano genial e generoso do Criador: eram pai e filha. É um afeto instantâneo e imenso, incomensurável, que faz e desfaz do nosso antigo ser.
Assim, calando minhas fraquezas e desfazendo a correria da vida, você me apareceu. Pronto. Como manter uma coerência com aqueles grandes objetivos profissionais? Como continuar obedecendo à lógica daquela ambição desmedida? Todos os compromissos e valores já construídos ruíram sob uma nova modalidade de sentimento, um sentimento renovador e carismático, que me arrebatou de forma acachapante. Eu não era mais a mesma pessoa de segundos atrás. Estava em paz e feliz.
Talvez as pessoas não entendam esse meu amor por você. Não se pode atribuir algo tão puro às práticas humanas, sempre matizadas pelos interesses mundanos. Nem mesmo às boas ações dos homens, bafejadas pelo altruísmo caridoso. Nada disso nos pertence. Aliás, nós dois sabemos que amor não se explica. Amor se sente. Não há caridade que justifique o amor, mas é o amor que a justifica. E aceito, por amor e caridade, tanto faz, as beijocas que você guarda para mim no fim do dia, como prêmio maior pelas lutas que empreendi.
Quisera eu, querida, que todas as pessoas pudessem saborear esse sentimento: amar alguém que não foi gerada por mim, que não me perpetua com traços físicos semelhantes, que não tem o “sangue do meu sangue”, e que permite que a jazida de afeto que trago em meu peito seja explorada e canalizada para um bem-querer. Sim, sentir amor por um filho adotivo me permite realizar algo maravilhoso: alguém que se torna fundamental em minha vida, com quem construo uma relação de amor no cotidiano, este ser especial que eu nunca teria tido a capacidade biológica de gerar!
Enfim é isto: eu jamais teria gerado você, meu anjo. Se dependesse da minha essência animal, limitada e finita, que vai virar pó, eu nunca teria me transformado eu seu pai. O que me habilitou para esta missão foi minha crença profunda e inabalável que o amor de Deus não tem limites e não se submete a tipologias, não se prende com amarras sociais ou raciais. É por isso que te amo, além, obviamente, destes olhos negros e amendoados, que me sorriem, um pouquinho antes de dormir.

criado por savio.renato
14:38:00Por Sávio Bittencourt
(Matéria publicada no Jornal O Estado, de Fortaleza)
Tenho utilizado este espaço precioso do O Estado, todas as sextas-feiras, para trazer ao debate assuntos relacionados com a institucionalização indiscriminada e criminosa de crianças e adolescentes no Brasil, prática hedionda que é legitimada pela cultura da demagogia. Esta realidade só é possível em função da passividade patética que os setores sociais têm em relação ao real enfrentamento do problema.
Mas, além dos abrigos, dos psicólogos, dos assistentes sociais, dos conselheiros tutelares, dos componentes da rede de proteção á infância, dos promotores de justiça e dos juízes, que têm a obrigação de tratar desta questão como efetiva prioridade, os cidadãos podem apresentar uma colaboração efetiva para a transformação desta infame realidade. Num país de injustiças pungentes, com uma corrupção epidêmica, e um poder público despudoradamente ineficiente, restam ao cidadão de bem duas alternativas: a primeira, mais cômoda, tentar se alienar dos problemas e viver para si, numa redoma emocional entrópica; a segunda, mais trabalhosa, é ir à luta para transformar realidades injustas.
Não é exatamente uma tarefa fácil se organizar em sociedade para defender um ideal. Todavia, no caso dos grupos de apoio à adoção, a despeito de resistência daqueles que não querem ser fiscalizados ou questionados em suas autoridades, ou até dos que lucram com o abrigamento de crianças, o processo histórico tem sido muito recompensador. A luta é intensa, assistimos iniqüidades e injustiças todos os dias, mas temos o prazer de contabilizar avanços maravilhosos, que salvaram vidas afetivas e construíram histórias de amor e superação, dignas de serem contadas aos netos. Vou contar apenas uma delas, que vi acontecer.
Em Niterói, há um grupo de apoio à adoção chamado Quintal da Casa de Ana. Este grupo conseguiu realizar o projeto “Um Lar para Todos”, com o apoio da PETROBRAS, empresa que demonstra ter uma responsabilidade social real. O quintal foi à luta: psicólogas e assistentes sociais visitaram e entrevistaram todas as crianças institucionalizadas da Comarca e suas famílias de origem.
Após um ano de intenso trabalho e centenas de visitas e reuniões, com mais de trezentas crianças atendidas, já é possível se traçar uma quadro factual da institucionalização em Niterói e buscar, junto aos atores sociais da rede de atendimento à infância e juventude, as soluções que poderão transformar para melhor a vida destes brasileiros criados ao arrepio do direito à convivência familiar e comunitária.
Neste primeiro esforço de mapeamento surgiram resultados significativos: mais de vinte reintegrações de crianças às famílias de origem e trinta e uma disponibilizadas para adoção. Além disso, novos abrigamentos foram evitados, através de setenta e cinco atendimentos preventivos a crianças ou adolescentes e suas famílias, encaminhadas pelo Conselho Tutelar, com risco de institucionalização iminente. A sociedade civil organizada pode dar uma contribuição efetiva na luta pela garantia do direito ao direito fundamental de viver em família. Para este fim existem os Grupos de Apoio à Adoção, que preconizam as adoções legais, a devida preparação do adotante, a ampliação do perfil da criança desejada (para incluir as crianças disponíveis) e a reintegração à família de origem, quando possível e conveniente para a criança. É só um exemplo, dentre tantos deste Brasil, que talvez possa inspirar novas lutas.

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criado por savio.renato
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