Sávio Bittencourt

Promotor de Justiça (RJ). Formado em Direito (UFF). Mestre em História Social (USS). Doutor em Geografia (UFRJ).Professor da Pós da PUC-RIO e da FGV. Presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção e fundador do Quintal da Casa de Ana

Sávio Bittencourt

Promotor de Justiça (RJ). Formado em Direito (UFF). Mestre em História Social (USS). Doutor em Geografia (UFRJ).Professor da Pós da PUC-RIO e da FGV. Presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção e fundador do Quintal da Casa de Ana
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Arquivo de: Outubro 2008

27.10.08

Meu Bem Querer!

Por Sávio Bittencourt
(matéria publlicada no jornal O Estado , de Fortaleza)


Ser amado é uma das sensações mais prazerosas que o ser humano pode experimentar. Ser especial, causar satisfação e felicidade a alguém, fazer a diferença na vida das pessoas! Esta experiência nos é ensinada na infância, na qual somos conscientemente o centro do mundo. É realmente confortante saber que há apreço e carinho nos corações que te cercam, que querem te proteger e acomodar. É a grande semeadura de auto-estima na alma humana, que irá florescer e se tornar uma densa floresta de amor próprio. É a paz profunda do ser-muito-amado!

Uma densa floresta de amor próprio! Como ela é fundamental em nossa vida adulta, cheia de dissabores e contratempos! É esta reserva de amor próprio que nos obriga a respeitar nossa existência digna quando as coisas fogem ao controle, nos sustenta nas situações adversas, nas relações desgastadas, nas amizades e amores desfeitos. Sem essa consciência da nossa importância, dessa filiação divina que me obriga a ser respeitável e digno, seríamos abatidos completamente pela primeira tempestade.

Quando nosso mundo estremece e as coisas parecem fora do controle é nessa floresta densa, semeada na nossa infância, que vamos buscar a fonte de água cristalina que nos refresca. Lá há o silêncio absoluto. O silêncio reconfortante, de se saber amado, que é inesquecível, é perpétuo. Nos reconhecemos neste local, na nossa essência mais pura, sem os erros e vícios que fomos incorporando no mundo.

Uma forma eficaz monitorar nossa felicidade é re-visitar esta floresta densa de afeto com os nossos propósitos e práticas da vida que levamos. Será que nossas ações nos dias de hoje, de vida madura, são condizentes com aquela lógica do amor silencioso? Minhas atitudes são compatíveis com aquele bom caráter do ser muito amado que fui e sou? O que aconteceu com aqueles sonhos mais ternos, éticos e justos? Desapareceram na poeira do mundo?

Podemos ir a este santuário interno a todo tempo. Ele está sempre aberto e disponível. Funciona como um mediador para os excessos do cotidiano, refreia nosso ímpetos menos amorosos. É a fórmula para uma autocrítica segura, sem exageros que nos levassem a acreditar que somos imprestáveis, nem superficialidade que nos deixassem inconscientes da necessidade de mudança de comportamento. Tudo isso por uma sementinha de amor, cultivada na infância!

Parece ser uma idéia comum, unânime, a afirmação de que viver em família é fundamental para o amor próprio das crianças, nos anos de formação de seu caráter e personalidade. A pergunta que não quer calar, e não se calará enquanto houver uma só criança sem família, é porque se permite, com tantas pessoas pagas para garantir os direitos da infância, que uma criança passe sua infância afastada do convívio familiar. Porque? Porque ela não retorna a sua família de origem? Se há risco para ela nesta família original, porque ela não vai para uma família adotiva? Porque? Porque há tantos conselhos, tantos debates, tantas reuniões, tanta gente tratando do mesmo assunto, tanto discurso social, sem que mudanças radicais sejam providenciadas nesta questão da convivência familiar?

Nenhuma resposta a estas questões pode realmente apagar a realidade: o sistema de institucionalização no Brasil é criminoso e abjeto, incompatível com nossa legislação e todos os discursos que não apontem para sua imediata transformação são demagógicos, mentirosos e levianos. O amor não permite condescendência com a omissão. Amor é atitude.

20.10.08

Por que eu te amo?

Por que eu te amo?
Quando te vi, pequenina, enrolada em panos, não pensei em nada. Meu mundo ficou silente. Sem buzinas de automóveis, sem prazos de trabalhos a cumprir, sem aqueles pensamentos insistentes, invasores, que assolam a mente das pessoas. Nada. Minha vaidade, minhas economias, minha carreira, minha “qualquer outra coisa”, tudo se calou em silêncio arrebatador. Todas as pressões das coisas urgentes e importantes, as atitudes imperiosas, as conquistas sonhadas, nada me surgiu...foi como se tudo isso nunca tivesse existido.

Não havia nada ali naquele momento além de você, mulata, pequena, diante dos meus olhos, me provocando o maior silêncio que já ouvido por um mortal. Nosso primeiro abraço foi comprometedor: cerquei você com meus braços, erguendo-os com a intenção das muralhas protetoras de uma cidade medieval, te enlaçando por um instante de forma tão intensa que seria possível a qualquer laboratório identificar que nosso DNA era o mesmo. Se não o DNA do sangue, com certeza o DNA da alma. A qualquer um era possível ver que aquele homem com cara de português e aquela menina africana eram parte de um grande plano genial e generoso do Criador: eram pai e filha. É um afeto instantâneo e imenso, incomensurável, que faz e desfaz do nosso antigo ser.

Assim, calando minhas fraquezas e desfazendo a correria da vida, você me apareceu. Pronto. Como manter uma coerência com aqueles grandes objetivos profissionais? Como continuar obedecendo à lógica daquela ambição desmedida? Todos os compromissos e valores já construídos ruíram sob uma nova modalidade de sentimento, um sentimento renovador e carismático, que me arrebatou de forma acachapante. Eu não era mais a mesma pessoa de segundos atrás. Estava em paz e feliz.

Talvez as pessoas não entendam esse meu amor por você. Não se pode atribuir algo tão puro às práticas humanas, sempre matizadas pelos interesses mundanos. Nem mesmo às boas ações dos homens, bafejadas pelo altruísmo caridoso. Nada disso nos pertence. Aliás, nós dois sabemos que amor não se explica. Amor se sente. Não há caridade que justifique o amor, mas é o amor que a justifica. E aceito, por amor e caridade, tanto faz, as beijocas que você guarda para mim no fim do dia, como prêmio maior pelas lutas que empreendi.

Quisera eu, querida, que todas as pessoas pudessem saborear esse sentimento: amar alguém que não foi gerada por mim, que não me perpetua com traços físicos semelhantes, que não tem o “sangue do meu sangue”, e que permite que a jazida de afeto que trago em meu peito seja explorada e canalizada para um bem-querer. Sim, sentir amor por um filho adotivo me permite realizar algo maravilhoso: alguém que se torna fundamental em minha vida, com quem construo uma relação de amor no cotidiano, este ser especial que eu nunca teria tido a capacidade biológica de gerar!

Enfim é isto: eu jamais teria gerado você, meu anjo. Se dependesse da minha essência animal, limitada e finita, que vai virar pó, eu nunca teria me transformado eu seu pai. O que me habilitou para esta missão foi minha crença profunda e inabalável que o amor de Deus não tem limites e não se submete a tipologias, não se prende com amarras sociais ou raciais. É por isso que te amo, além, obviamente, destes olhos negros e amendoados, que me sorriem, um pouquinho antes de dormir.



13.10.08

Vamos à luta!

Por Sávio Bittencourt

(Matéria publicada no Jornal O Estado, de Fortaleza)


Tenho utilizado este espaço precioso do O Estado, todas as sextas-feiras, para trazer ao debate assuntos relacionados com a institucionalização indiscriminada e criminosa de crianças e adolescentes no Brasil, prática hedionda que é legitimada pela cultura da demagogia. Esta realidade só é possível em função da passividade patética que os setores sociais têm em relação ao real enfrentamento do problema.

Mas, além dos abrigos, dos psicólogos, dos assistentes sociais, dos conselheiros tutelares, dos componentes da rede de proteção á infância, dos promotores de justiça e dos juízes, que têm a obrigação de tratar desta questão como efetiva prioridade, os cidadãos podem apresentar uma colaboração efetiva para a transformação desta infame realidade. Num país de injustiças pungentes, com uma corrupção epidêmica, e um poder público despudoradamente ineficiente, restam ao cidadão de bem duas alternativas: a primeira, mais cômoda, tentar se alienar dos problemas e viver para si, numa redoma emocional entrópica; a segunda, mais trabalhosa, é ir à luta para transformar realidades injustas.

Não é exatamente uma tarefa fácil se organizar em sociedade para defender um ideal. Todavia, no caso dos grupos de apoio à adoção, a despeito de resistência daqueles que não querem ser fiscalizados ou questionados em suas autoridades, ou até dos que lucram com o abrigamento de crianças, o processo histórico tem sido muito recompensador. A luta é intensa, assistimos iniqüidades e injustiças todos os dias, mas temos o prazer de contabilizar avanços maravilhosos, que salvaram vidas afetivas e construíram histórias de amor e superação, dignas de serem contadas aos netos. Vou contar apenas uma delas, que vi acontecer.

Em Niterói, há um grupo de apoio à adoção chamado Quintal da Casa de Ana. Este grupo conseguiu realizar o projeto “Um Lar para Todos”, com o apoio da PETROBRAS, empresa que demonstra ter uma responsabilidade social real. O quintal foi à luta: psicólogas e assistentes sociais visitaram e entrevistaram todas as crianças institucionalizadas da Comarca e suas famílias de origem.

Após um ano de intenso trabalho e centenas de visitas e reuniões, com mais de trezentas crianças atendidas, já é possível se traçar uma quadro factual da institucionalização em Niterói e buscar, junto aos atores sociais da rede de atendimento à infância e juventude, as soluções que poderão transformar para melhor a vida destes brasileiros criados ao arrepio do direito à convivência familiar e comunitária.

Neste primeiro esforço de mapeamento surgiram resultados significativos: mais de vinte reintegrações de crianças às famílias de origem e trinta e uma disponibilizadas para adoção. Além disso, novos abrigamentos foram evitados, através de setenta e cinco atendimentos preventivos a crianças ou adolescentes e suas famílias, encaminhadas pelo Conselho Tutelar, com risco de institucionalização iminente. A sociedade civil organizada pode dar uma contribuição efetiva na luta pela garantia do direito ao direito fundamental de viver em família. Para este fim existem os Grupos de Apoio à Adoção, que preconizam as adoções legais, a devida preparação do adotante, a ampliação do perfil da criança desejada (para incluir as crianças disponíveis) e a reintegração à família de origem, quando possível e conveniente para a criança. É só um exemplo, dentre tantos deste Brasil, que talvez possa inspirar novas lutas.

07.10.08

Isolado o Gene do Afeto!


Isolado o Gene do Afeto!
Por Sávio Bittencourt
Matéria publicada em Setembro no Estado, Fortaleza-CE.


Imagine que nestes dias em que vivemos a histeria do “genticismo”, na qual tudo na vida tem uma explicação a partir dos cromossomos humanos, até a facilidade para se divorciar pode estar ligada a esta causa, segundo estudo recentemente divulgado pela mídia. O curioso é que nem bem os estudos são divulgados, sem que especialistas possam comentá-los ou contradizê-los, já ganham status de verdades absolutas, mandamentos imutáveis.

Assim, os seres humanos ganham uma fórmula mágica para explicação genérica de todos os seus problemas: a culpa é da genética. Todos os egoísmos, as taras, as burrices, os condicionamentos doentios, tudo é determinado pelos cromossomos e nós somos passageiros involuntários de uma viagem errante sobre a qual não temos nenhum controle.

Este período se tornou propício para o surgimento deste neo-darwinismo social. A busca das origens genéticas dos males humanos, inicialmente voltada para nossa perpétua luta contra a morte, para cura e prevenção das doenças, ganha outro uso, político. Neste nova afetação da genética, os comportamentos sociais passam a ser explicados a partir deste paradigma, dispensando análises psicológicas e históricas mais profundas. Poderemos explicar tudo!

O lado negro desta tendência é que a capacidade de evolução do ser humano, em busca de condutas que tragam benefício a si e aos demais, fica em segundo plano. O livre arbítrio se torna condicionado à verdade genética e o homem prisioneiro eterno de sua natureza animal. É a escravidão eterna do cromossomo. Se tenho o cromossomo do divórcio, jamais poderei encontrar um amor da minha vida. Também não precisarei me dedicar a ele, me superar para me fazer amado, lutar por sua longevidade. Poderei ser egoísta e desleixado, não ser perseverante na busca de encontros, nem hábil para driblar os desencontros.

E se eu tiver o gene do desemprego ou da falência? De que adiantará minha dedicação ao trabalho, meu sorriso nos lábios durante o dia de labuta e o suor que pinga? Poderei ser relaxado e imprevidente. Sem falar no gene da sem-vergonhice, que sem que me caiba qualquer reprovação, me ataca para que eu me apodere do dinheiro público ou deixe de cumprir minha missão como servidor.

Fico imaginando o dia que for isolado e codificado o gene do afeto. As pessoas poderão explicar sua monumental falta de cuidado com seus filhos, seu apego hipócrita ao dinheiro e ao sucesso. Não precisarão mais mentir sobre seus propósitos, com a clássica explicação de estarem lutando pelo futuro da família ou por algum benefício para a sociedade. Poderão confessar de peito aberto, despudoradamente, a vaidade desmedida, sua luta insana pelo poder, mesmo que seja um micro-poder, um poderzinho ínfimo e ridículo, como percebido pelo teórico francês Michel Foucault. A explicação será simples e cândida: não tenho tempo para meus filhos, nem paciência para o cotidiano da minha família, porque não tenho um gene de afeto forte, meu gene dominante é o do “ego-acima-de-tudo”.

Talvez a ciência em sua evolução astronômica possa nos legar uma nova vacina para compensar ausência do gene do afeto, com hormônios poderosos capazes de dar a percepção do essencial. A beleza da vida escorre diante dos olhos, todos os dias, enquanto se corre em círculos em busca de uma glória sempre passageira e finita. A felicidade está aqui e agora, podemos tocá-la e sorvê-la...vivê-la intensamente...sem que as pesquisas venham nos persuadir que devemos ser tristes.