Sávio Bittencourt

Promotor de Justiça (RJ). Formado em Direito (UFF). Mestre em História Social (USS). Doutor em Geografia (UFRJ).Professor da Pós da PUC-RIO e da FGV. Presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção e fundador do Quintal da Casa de Ana

Sávio Bittencourt

Promotor de Justiça (RJ). Formado em Direito (UFF). Mestre em História Social (USS). Doutor em Geografia (UFRJ).Professor da Pós da PUC-RIO e da FGV. Presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção e fundador do Quintal da Casa de Ana
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Arquivo de: Novembro 2008

19.11.08

O Juiz e a Criança Abandonada em Abrigo

O Juiz e a Criança Abandonada em Abrigo
Por Sávio Bittencourt

 


A Associação dos Magistrados Brasileiros lança em todo o Brasil a segunda fase da Campanha Nacional Mude um Destino, criada para incentivar as adoções legais e demonstrar a disposição do Poder Judiciário de dialogar com a sociedade brasileira sobre os preconceitos e mitos que envolvem o tema. É um momento histórico digno de nota: um gigante institucional desperta para a gravidade da situação de abandono de mais de oitenta mil crianças que vivem depositadas em instituições, sem que lhes seja garantido o direito constitucional de viver em família.

A Magistratura tem um papel extremamente importante na solução deste abandono histórico. É o Juiz de Direito que tem o poder-dever de dar solução definitiva e eficaz para cada criança que vive sem família. É este agente político do estado que tem em suas mãos a oportunidade de salvar um ser indefeso do abandono, da falta de auto-estima, da solidão. Transforma-se um homem comum, Juiz de Direito, servidor público, numa espécie de anjo: um toque de sua caneta pode transformar todo o sofrimento noutra realidade, tingindo uma vida em preto e branco em tons afetivos de boniteza.

Eu conheço Juízes realmente especiais. Longe da soberba e do comodismo, ganham consciência de seu papel revolucionário para a vida de gente inocente, partindo decididamente para o enfrentamento de sua missão, que não é fácil, mas precisa ser cumprida com coragem e determinação. Todavia, infelizmente, todos os que militam em favor do direito à convivência familiar têm conhecimento de atuações menos comprometidas de magistrados que não perceberam a importância de sua atuação para diminuir o impacto desta exclusão social. Alguns casos relatados, se verdadeiros, chegam às raias do absurdo e deveriam ser considerados pelos sistemas interno e externo de controle da magistratura.

Contudo o segredo judicial que envolve os processos nas Varas da Infância e Juventude tem servido mais para esconder realidades absurdas e atuações pouco louváveis do que para proteger a intimidade das pessoas envolvidas. Assim, casos que deveriam ser objeto de indignação pública e correição institucional ficam varridos para debaixo do tapete, causando uma situação aflitiva para a criança ou famílias, vítimas de uma decisão errônea que ficará covardemente acobertada pelo anonimato.

Destarte, é preciso afirmar que todo monopólio da informação sobre a criança é injusto, desleal, anti-democrático, abjeto e inconstitucional. Nenhuma instituição - nem mesmo a Magistratura - é proprietária das crianças abrigadas. Estas crianças, que muitas vezes são vistas como coisas, são sujeitos de direito privilegiados pela prioridade institucional. A informação sobre a criança institucionalizada precisa ser partilhada para que a sociedade possa exercer um controle democrático sobre os motivos, a duração de sua permanência no abrigo, seu tratamento enquanto abrigada e apresentar soluções criativas e afetivas para salvá-la do abandono.

O sentimento de milhares de pessoas que lutam, há mais de uma década, pela reintegração familiar, quando possível e recomendável para a criança, e pela adoção, como forma de família amorosa e perpetuamente acolhedora, é de grande expectativa: a esperança é que este movimento da AMB se aprofunde e se enraíze por toda a Magistratura nacional, sem ficar restrito apenas a sua vanguarda. Nossa crença é que cada Juiz precisa ter seu coração tocado por este urgência e se desembarace das teias de qualquer demagogia ou preconceito para dar à criança em tempo curtíssimo tempo uma solução para seu abandono em abrigo. Isto significa que o papel principal do Juiz de Direito da Infância e Juventude é garantir à criança o direito à família. É uma missão divina, majestosa, bela e necessária!

12.11.08

Vanguarda!

Vanguarda.
Por Sávio Bittencourt
(Artigo publicado no O Estado, Fortaleza)

Existe uma poesia de autoria do Cearense João Olavo Roses chamada Vanguarda, que merece um olhar mais atento. Veja com sua própria sensibilidade, amigo leitor, seu texto:

“Pés machucados / Olhar dolente / Mãos calejadas: Quem vai na frente./
Quem vai na frente / Não vê estrada / Em plena mata / Abre picada. /
Cavando a terra / Joga a semente. / Não colhe flores / Quem vai na frente.
Quem vai na frente / Não tem asfalto / Não tem conforto / Só sobressalto /
Mas abre estradas / Planta caminhos / Buracos tapa / Arranca espinhos.
E deixa as flores / Quem sempre faz / Feliz e alegre / Quem vem atrás.”


Toca na alma daqueles que se predispõem a buscar transformações para o mundo, inconformados perpétuos com o que lhes parece injusto. Há pessoas que efetivamente são impelidas a transformar. Sentem uma profunda empatia com aqueles que sofrem ou estão em situação social adversa. Muitas vezes se lançam, sem lenço nem documento, como diria Caetano, numa jornada regada de boas intenções e sonhos juvenis.

Contudo, é muito comum que estes ímpetos transformadores, bafejados pelos ventos da juventude, sejam aplacados pelas contrariedades que se levantam, aos milhares, contra qualquer ação de renovação da sociedade. Todo o esforço de mudança é sempre desaconselhado pelos mais experientes, que perderam seus sonhos adolescentes em algum lugar do passado. Sobrou só o cinismo cético, a descrença nas ações gratuitas, descrença no homem, descrença no mundo. Pode-se dizer que se trata de uma sabedoria árida, uma sentença de constatação da ausência de amor no mundo. Nada vai mudar.

Há outros resistentes: aqueles que detestam qualquer mudança e usam uma estratégia mais elaborada para evitar sua ocorrência. Estes são os mais nocivos seres sociais: travestidos de revolucionários, com discurso afinado pela batuta do “politicamente correto”, se fingem de engajados nas lutas sociais. Todavia, quando proposta qualquer transformação concreta de situação injusta, os “falsos-vanguardas”apelam para explicações elaboradas sobre a situação social, que demonstram que antes de se transformar aquela realidade é necessário se fazer algo mais grandiosos e abrangente, esforço antecedente indispensável para que qualquer outro passo seja dado.

Assim, sempre há algo que antecede o que pretendemos transformar. Nosso esforço sempre é impedido, porque estes assassinos de sonhos apontam para a inviabilidade da solução porque a algo a ser feito antes, sem o que nada do que foi proposto se tornaria legítimo.

São os amantes da demagogia, idólatras da pobreza, que ao invés de lutar contra ela, para salvar as pessoas que nela perdem toda sua dignidade humana, levantam-se contra qualquer ação potencialmente transformadora da realidade. Estes são os grandes espinhos de quem se propõe a lutar por uma vida mais humanizada, justa e fraterna. Evocam a pobreza como figura discursiva em busca do aplauso fácil de auditório débeis, incapazes de mudar o destino de uma só criatura.

Mas nos resta a esperança que o poema de João Olavo nos traz, em sua simplicidade desconcertante: caminhamos em meio destes desafios e provocações, como em selva densa, desprovidos de bússola. Mas temos a fé que plantamos estradas, tapamos os buracos, arrancamos os espinhos e jogamos as sementes. Já podemos até, em nossa alma de criança eterna, quem sabe, sentir o perfume das flores que ainda vão nascer.




05.11.08

Educar para a vida

Educar para a vida
Por Sávio Bittencourt (artigo publicado no ESTADO, Fortaleza)

A tarefa de educar as crianças é da família. A escola é um poderoso coadjuvante, mas apenas um coadjuvante. É na família, com a experiência viva do empírico, que os valores importantes são firmados. E a didática familiar não é filosoficamente criada a partir de educadores famosos, tampouco se funda na esteira de elaborações dos doutores dos governos, responsáveis pelos programas oficiais de ensino.

A educação na família se faz pelas coisas que são ditas, mas mais vivamente pelas coisas que são feitas. Já se disse que “as palavras convencem, o exemplo arrasta”. A vivencia do cotidiano da casa, os hábitos das pessoas que circundam a criança, sua forma de agir e reagir aos acontecimentos da vida, tudo isso forma uma influente rede de informações que tendem a se enraizar naquele ser em formação.

O imortal Paulo Freire, no clássico livro Pedagogia do Oprimido, afirma que “não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão”. É justamente na ação-reflexão do cotidiano, em que vida se desenrola e vai-se indo entre afazeres e trabalho, que ocorre a apreensão dos valores pela criança, a partir da observação do comportamento dos adultos.

Nestes tempos bicudos, de intensa luta pelo dinheiro, pelo dito esforço para ganhar a vida, é imperioso que as famílias tenham a capacidade de se concentrar nas suas ações-reflexões, com a consciência de que tais movimentos, ainda que naturalmente esboçados e realizados no dia-a-dia, são elementos de educação das crianças da casa. O fato é que, em obediência ao senso comum de que devemos trabalhar e o trabalho é a coisa mais importante da vida, muitas vezes nos esquecemos de refletir sobre nossa existência, nosso papel. Vamos indo trabalhando e seguindo em frente como se corrêssemos para uma linha de chegada, postada no infinito. Transformamos nosso viver numa ação-sem-reflexão, ação pura, desumanizada.

John Lennon, que além da genialidade musical possuía um senso de humor sutil, afirmou que “vida é aquilo que acontece enquanto planejamos o futuro”. Perdemos com freqüência a noção da finitude do nosso tempo, nos esquecemos de viver o presente de forma mais intensa. Talvez esta corrida desenfreada pelo trabalho, pelo dinheiro, pelo status e pelo poder tenha cegado nossa geração, e se transformado na maior deseducação de crianças e adolescentes que os tempos contemporâneos poderiam criar. Precisamos refletir sobre nossas ações, mesmo que elas sejam socialmente adequadas, como a valorização exacerbada e desenfreada da vida profissional. São estes os valores que queremos que nosso filhos tenham? Que a vida profissional pode suprir a afetividade da vivência da família, na hora do jantar? Que o ser humano não é definido por seu afetos, valores e amores, mas apenas por sua profissão ou posição?

Estas questões são lançadas para provocar alguma reflexão: de nada adianta falar de amor e não vivê-lo, até porque nenhuma poesia pode expressar melhor o afeto do que o velho e bom beijo artesanal, dado que a boca espontânea do amor. Convido o amigo leitor, ou leitora, a olhar a sua volta e se perguntar o que os seus fazeres estão a ensinar aos pequenos. Aliás, proponho uma nova ação-reflexão aos amigos, todos, de pegar aos filhos pelas mãos e andar vagarosamente pela praça mais próxima, pela praia ou pela beira do rio. Usufrua deste vagar, pois é no “de-vargar” que a vida realmente acontece.